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Sentimentos

Posted by Alexis Kauffmann on Jan 25, 2009 in Sentimento

Sentimentos não podem ser exatamente controlados. Pelo menos, não na minha experiência.

Admito que esse é um assunto de que só podemos falar por nossa própria experiência. Sentimentos são o que você tem de mais pessoal e intransferível em sua vida, mais até do que os seus pensamentos.

Os pensamentos, você pode escrevê-los, dizê-los em voz alta, gritá-los e chorá-los.

Mas o sentir? Ou você sente, ou não sente. Ninguém é capaz de dizer com certeza o que se passa no peito dos outros.

Falávamos sobre o “controle”. Até onde vai minha experiência de vida, nunca pude dizer que “controlei” o que sentia ou o que deixava de sentir.

Raiva, amor, tranqüilidade, indiferença, ansiedade, tristeza, alegria, excitação, desânimo, tudo isso parece ter vontade própria, surgindo e desaparecendo conforme uma espécie de cronograma oculto que pode ou não ter relação com as coisas que acontecem à sua volta.

Falando de minha experiência com depressão, lembro-me que uma grande dificuldade era fazer os outros entenderem como eu poderia estar me sentindo triste “sem motivo”.

O motivo da depressão é a própria depressão. A depressão é um conjunto de sentimentos de tristeza e desânimo que soterram uma pessoa, sem que seja possível encontrar um acontecimento externo que os justifique.

O que estou prestes a dizer aqui é que você pode não ter controle algum sobre como os sentimentos surgem, mas não tenho dúvida de que você é diretamente responsável pela intensidade e pela duração desses sentimentos.

Um sentimento é um gato que salta no seu colo. Você pode aninhá-lo e afagá-lo, ou pode deixá-lo ir.

Tendo muita experiência com gatos de estimação, posso dizer que não é fácil expulsar um gato de um local onde ele decidiu dormir. Gatos ficam ranzinzas quando têm seu sono incomodado. Mordem, arranham, resmungam, brigam.

Quando você tem uma irrupção de um sentimento negativo, é como se um gato indesejável e agressivo saltasse no seu colo. Ele crava as unhas em sua perna, morde suas mãos, faz de tudo para subjugá-lo à sua vontade.

O que você, eu, todo mundo faz quando isso acontece? Remoemos o sentimento negativo.

“Remoer” é alimentar o sentimento com pensamentos.

Quanto mais você produz pensamentos na sintonia do sentimento, mais o sentimento cresce.

Se algo o deixa com raiva de uma pessoa, você pensa no quanto essa pessoa foi ruim para você. Pensa na ingratidão, relembra acontecimentos anteriores já há muito esquecidos e, pelo menos em tese, já perdoados. Você maquina vinganças. Imagina a outra pessoa em má situação. Revive mágoas e disserta sobre o caso, procurando uma justificativa “racional” para sua raiva. Quando sua imaginação se esgota, você telefona para amigos e desfia seu rosário de queixas, ávido que eles digam que você tem razão. Se um desses amigos tenta acalmá-lo, você fica com ainda mais raiva.

E assim por diante. Você conhece a rotina. A questão é perguntar exatamente o que você ganha ao fazer isso.

Gostaria de dizer que não ganha nada. Mas não é verdade. Ganha sim.

O que você ganha é, apenas e simplesmente, o prolongamento indefinido do sentimento.

É isso que você, eu e todo mundo morbidamente fazemos.

Sentimentos são sinal de saúde e vida. Uma pessoa incapaz de sentimentos, sejam eles positivos ou negativos, tem um sério problema de saúde. Os sentimentos lembram-nos de que estamos vivos e que somos capazes de desfrutar a vida.

Assim, todos nós gostamos de sentir. Estou certo de que todos nós, se pudermos escolher, vamos preferir sentir alegria em vez de tristeza.

Mas se a opção for por sentir nada, a maioria de nós vai preferir um sentimento negativo à anestesia emocional.

Um outro aspecto dos sentimentos negativos é que, quando eles surgem em conseqüência de um fator externo, de alguma situação difícil ou indesejável, eles nos impelem à ação.

Quando você sente dor, você se afasta do objeto que o machuca. É um movimento de autopreservação.

Assim, os sentimentos negativos só se tornam realmente nocivos quando os alimentamos além do necessário para nos impelir à ação positiva para resolver o problema.

Comecei este artigo dizendo que duvidava ser possível “controlar” os sentimentos. Chegamos agora ao ponto de afirmar algo que é quase o contrário: você pode, sim, controlar o ato de “remoer” sentimentos.

“Remoer” é um comportamento. Uma ação. Uma decisão 100% pessoal.

Mesmo quando em crise depressiva, você pode decidir não remoer os sentimentos negativos que o tomam de assalto. Você pode decidir respirar, pensar em outra coisa, ou pensar em nada.

A única dificuldade é convencê-lo disso. “Remoer” sentimentos pode se transformar num vício tão arraigado que parece “natural”, um ato que você não pode controlar.

O fato é que pode, sim. Basta experimentar. Se você conseguir desviar sua mente dos pensamentos que alimentam o sentimento ruim por 10 segundos, na próxima tentativa conseguirá fazê-lo por 20 segundos. Insista e você rapidamente notará que, se seus sentimentos não melhorarem, eles vão “parar de piorar”.

Para muita gente, “parar de piorar” já é praticamente sinônimo de melhora.

Se você continuar experimentando, verá que os sentimentos ruins terão duração cada vez menor e serão cada vez menos intensos.

Trate os sentimentos ruins como se fossem plantas daninhas. Recuse-se a regá-los com pensamentos e eles secarão.

E você, antes do que pensava possível, voltará a viver com mais alegria e uma sensação “controle” real sobre sua vida.

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O segundo tripé: Ação, Pensamento, Sentimento

Posted by Alexis Kauffmann on Apr 13, 2008 in Ação, Pensamento, Sentimento

Se você observar detidamente as correntes téoricas e terapêuticas em Psicologia, chegará à conclusão de que a diferença fundamental entre todas elas está na ênfase em que cada uma confere a um dos elementos deste segundo tripé.

A psicanálise dirige sua intervenção ao pensamento. A corrente comportamental, à ação. As terapias alternativas e introspectivas, ao sentimento.

Em última análise, o objetivo de todas elas é agir sobre o terceiro pé: o sentimento. As pessoas chegam aos consultórios de terapias sentindo-se mal, movidas pelo desejo de sentir-se bem.

O método para intervir sobre os sentimentos varia. Há muita discussão sobre qual é o “melhor” método, o mais eficaz, mas nem sempre essa discussão é coloca em primeiro plano o bem-estar do paciente. Há muita rivalidade teórica que é mais facilmente explicada e entendida no contexto da competição econômica – cada paciente de psicanálise a mais é um paciente de terapia comportamental a menos, e vice-versa – do que da discussão séria do fato científico.

Não ganho nada de ninguém com este blog. Sequer adicionei aqueles anúncios, tão freqüentes na blogosfera. Portanto, não posso ser acusado de privilegiar isso ou aquilo em detrimento de seus interesses… Porque não o farei!

O meu ponto-de-vista é o de que cada corrente teórica em psicologia, incluindo as rivalidades internas a cada corrente (psicanalistas freudianos não suportam os junguianos), enxergou um pedaço da realidade. Como naquela célebre história dos filósofos cegos que apalparam partes diferentes de um elefante e discutiam se o objeto apalpado era uma cobra, um tronco ou uma pedra, assim fizeram, e ainda fazem, os psicólogos em sua busca pelo entendimento da psique humana.

De fato, não se pode separar os seus sentimentos de seus pensamentos e ações. Se você quer mudar um deles, precisa intervir sobre os três.

Veja o caso do paciente depressivo. Ele se sente triste, portanto, seus pensamentos são tristes, portanto, seu comportamento é triste, portanto, ele se sente mais triste ainda, num ciclo vicioso que precisa ser detido para não piorar indefinidamente.

Tanto faz, no caso, o que veio primeiro: se foi a ação, o pensamento ou sentimento. O resultado final, independentemente da seqüência, é um bloco psíquico de ação-sentimento-pensamento.

Isso a que chamamos “bloco psíquico” explica a dificuldade das terapias para lidar com todos os perfis de pacientes. Algumas pessoas, respondem melhor a um tipo de intervenção do que outras e é nesse momento que todo chauvinismo teórico se torna nocivo ao paciente.

Portanto, você precisa se perguntar, em sua busca pela auto-confiança, o que precisa fazer em cada uma dessas esferas do segundo tripé. Mudar os pensamentos é essencial, mas não o suficiente. Você precisa agir em coerência com eses novos pensamentos. Ao fazê-lo, você desafiará sentimentos ancestrais, que emergirão sob a forma de angústia, ansiedade, medo, tentando evitar a mudança de hábitos, a mudança na rotina de seu segundo tripé.

Assim, permito-me recomendar uma abordagem gradativa. Tente modificar apenas uma coisa de cada vez. Talvez você precise se obrigar a sorrir e a olhar nos rostos das pessoas quando conversar com elas. Na primeira etapa, experimente apenas a olhar para os rostos, por exemplo. Repare nos sentimentos emergentes e não os ignore. Deixe que eles fluam livremente. Caso a ansiedade fique muito forte, descanse – digamos, abaixe os olhos, caso seu objetivo seja educar seu olhar. Em vez de condenar-se pelo seu “fracasso”, pense que você conseguiu hoje por 5 segundos o que ontem achava tão difícil. Amanhã conseguirá olhar para o rosto do seu interlocutor por 10 segundos em vez de apenas 5. Em três semanas, já terá adquirido um novo hábito e você terá mudado o bloco por inteiro. Passe então ao segundo objetivo: sorrir.

De meta em meta, usando o método gradativo você progredirá mais em seis meses do que nos seis anos anteriores. Se tiver ajuda profissional para determinar as metas a perseguir e avaliar seus progressos, tanto melhor. Se não, poderá ajudar-se muito e conquistará o primeiro grau na escada da autoconfiança: você vai começar a acreditar – porque terá visto o resultado prático – na própria capacidade de mudar para melhor e sentir-se realmente autoconfiante.

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